Em dezembro último, estive em São Luiz do Paraitinga. Caminhei pelas ruas, observei o preservado conjunto arquitetônico, conversei com os moradores. Achei graça ainda estarmos em dezembro e encontrar inúmeras placas nas casas com os dizeres “Aluga-se para o Carnaval”.
Quando questionei o dono da pousada sobre o assunto, ele explicou que era um sinal positivo ainda haver casas disponíveis a mais de dois meses do Carnaval, já que em outros anos, os aluguéis já eram acertados meses antes da grande festa. Segundo ele, a comunidade estava estudando formas de reduzir a folia, como forma de conter os exageros que poderiam levar a cidade à destruição.
Com cerca de 11 mil habitantes, somente em 2009 São Luiz do Paraitinga recebeu aproximadamente 140 mil turistas. Faltou água, faltou luz. As ruas do centro histórico, tomadas pela multidão pulando e dançando, não resistiriam por muito tempo, ele explicou. Pior, chamou minha atenção para as rachaduras que algumas casas apresentavam, apesar de todo o esforço para conservá-las, resultantes dos excessos do Carnaval.
E havia o Rio Paraitinga. Em dezembro, ele estava cheio, suas águas já invadiam a rua que passava sob a ponte. O problema, um morador explicou, não era quando chovia sobre São Luiz e sim na cabeceira do Rio. Mas, até então, ele acreditava que dificilmente a água conseguiria chegar até o centro histórico.
Em momento algum, ao conversar com estas pessoas, era possível imaginar o que viria a seguir. Poucas semanas depois, choveu demais. O Rio Paraitinga não só transbordou, mas invadiu São Luiz do Paraitinga com tamanha força, que deixou para trás um rastro de destruição. Pessoas ficaram sem ter onde morar, trabalhar. Ficaram sem água, sem comida, sem condições de viver. E todos nós ficamos sem um valioso patrimônio histórico.
Toda vez que vejo uma fotografia no jornal ou na internet, ou imagens na televisão, do que um dia foi São Luiz do Paraitinga – como eu a conheci – e como é hoje, sinto um misto de choque e tristeza. Uma cena repetida inúmeras vezes, de uma das torres da Igreja Matriz indo ao chão, me deixa sem ar. Não importa quantas vezes ela seja exibida.
Outro dia, li no jornal que será desenvolvido um trabalho com psicólogos na cidade, para ajudar a população a superar a perda do patrimônio histórico. E, de repente, eu tive um estalo.
Dois pesos e duas medidas é a forma que as pessoas têm de tratar um mesmo assunto, mudando o ponto de vista quando convém. Diariamente temos bons exemplos de como isso acontece, seja no âmbito público, privado, profissional… E o caso de São Luiz do Paraitinga me chamou a atenção para o nosso próprio patrimônio histórico em Mogi das Cruzes.
Quantas casas antigas, algumas também construídas de taipa de pilão – desaparecem do dia para a noite na Cidade? Porque aqui é mais fácil substituir o antigo pelo novo, apagando nossa história e, consequentemente, perdendo nossa identidade? Nós sofremos com o caso de São Luiz do Paraitinga, mas ignoramos o que acontece debaixo do nosso próprio nariz. A natureza não deu escolha para aquela cidade, mas a ação do homem parece decidir tudo por aqui. É algo a se pensar.
Deixe um comentário