Escritor americano, Mark Twain certa vez disse que “O homem é o único animal que fica vermelho… ou que precisa ficar”. Sempre que penso no sentimento de vergonha, esta frase me vem à mente. O ser humano é dotado de inteligência e emoção. Ao reconhecer que cometeu um erro, ainda que somente ele saiba disso, o sentimento de vergonha é inevitável, em público ou em particular.
Quando o erro não é nosso, mas de certa maneira nos sentimos afetados pelos atos de terceiros, costumamos chamar este sentimento de vergonha alheia. E vergonha alheia se tornou um sentimento comum entre muitos brasileiros, especialmente entre aqueles que têm acompanhado os desdobramentos dos “atos secretos”, as decisões dos “Conselhos de Ética” ou ainda os absurdos, puros e simples, que têm acontecido no Senado Federal.
Aliás, absurdos não têm faltado no noticiário nacional. A começar por um jornal – O Estado de S. Paulo – sofrendo censura. Decisão do desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, Dácio Vieira, que proibiu o jornal de divulgar informações referentes à Operação Faktor, denominada inicialmente de Boi Barrica, que envolve Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney. Já no jornal O Estado do Maranhão, a história é outra. A família aparece como vítima. Em quem acreditar?
No último domingo, na capa do caderno Aliás – A Semana Revista, do mesmo O Estado de S. Paulo, logo abaixo de uma foto, onde se via o trio de senadores Renan Calheiros, José Sarney e Fernando Collor, um texto dizia: “Princípios? Negociam-se. Transparência? Melhor mentir. E insistir na mentira, claro. Decoro? Fale mais alto a baixaria. Liberdade de expressão? Acordem a censura.” E por aí vai. Outro texto, no caderno Nacional, mostra como Lula, Sarney, Collor e Renan passaram de inimigos públicos a aliados. Isso sem esquecer que o Conselho de Ética, que deveria impor alguma ética ao Senado, é movido a outros interesses.
Enquanto nossos ex-presidentes despertam o sentimento de vergonha alheia em tantos brasileiros, os americanos se orgulham de seu ex-presidente, Bill Clinton, que numa manobra diplomática digna de elogios, conseguiu a libertação de duas jornalistas americanas presas na Coreia do Norte e condenadas a 12 anos de trabalhos forçados. Na internet, a frase publicada pelo apresentador Marcelo Tas dizia tudo: “Os ex-presidentes deles são melhores que os nossos”.
Mas no final das contas, talvez tudo o que eu tenha escrito aqui hoje esteja errado. Afinal, se até mesmo o ministro da Justiça inglês, Jack Straw, concordou em conceder liberdade condicional a Ronald Biggs, quem sou eu para questionar qualquer coisa neste sentido. Para quem não se lembra, em 1963, Ronald Biggs e mais 11 comparsas assaltaram o trem pagador. No ano seguinte, o ladrão foi preso e condenado a 30 anos de prisão mas… conseguiu fugir e veio parar onde? No Brasil, é claro. Depois de 36 anos foragido, ele se entregou em 2001, mantendo uma vida de playboy.
Isso tudo porque o Brasil se negou a extraditar Biggs, apesar das inúmeras tentativas do governo inglês. Depois de tantos exemplos em nossa história, ainda mais recentemente, pode-se concluir que ética é artigo de luxo, assim como a vergonha… E, pior ainda, que todo povo tem os governantes que merece.
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