Eu nunca fui presidente da República. Nunca fui governadora, deputada federal ou senadora. Nunca troquei o Maranhão pelo Amapá para me eleger senadora, despertando a desconfiança alheia. Nunca fui presidente do Senado Federal. Eu nunca fui proprietária de três emissoras ou dezenas de retransmissoras de televisão, de seis emissoras de rádio ou de um jornal de grande circulação.
Eu nunca precisei me explicar sobre como cheguei à Presidência da República, depois da morte de um presidente eleito, mas nunca empossado. Eu nunca fui responsável por uma grave crise econômica, que evoluiu para uma hiperinflação histórica. Eu nunca fui acusada de corrupção. Minhas decisões administrativas nunca culminaram em uma inflação mensal de 2.751%.
Eu nunca transferi meu domicílio eleitoral para um Estado recém-criado, o Amapá, porque, segundo dizem, queria evitar que o presidente da República da época – hoje meu aliado político – investigasse possíveis irregularidades em minha administração no Executivo.
Eu nunca incentivei o coronelismo, a oligarquia. Minha família nunca dominou a política do Maranhão, contribuindo abertamente para as diferenças sociais, tornando meus aliados cada vez mais ricos e o Estado cada vez mais pobre. Eu nunca fui eleita para a Academia Brasileira de Letras, nunca escrevi 22 livros, nunca fui agraciada com títulos ou medalhas.
Eu nunca fui acusada de permitir a proliferação em massa de atos secretos no Senado Federal, que incluíam desde o aumento de salários até a contratação de apadrinhados políticos. Eu nunca fui acusada de nepotismo, por contratar meu irmão, duas sobrinhas, um neto, um namorado de uma neta, uma sobrinha e uma prima de meu genro.
Eu nunca tive contas secretas ou desviei recursos recebidos da Petrobras pela minha fundação para outras empresas-fantasmas de minha família. Eu nunca apoiei o Ato Institucional Nº 5, que deu plenos poderes aos militares para, entre outras coisas, fechar o Congresso Nacional e controlar a liberdade do povo brasileiro.
Eu nunca protegi meus filhos de acusações de corrupção, tampouco eu nunca permiti que meu neto abrisse uma empresa que intermediava a concessão de empréstimos consignados a servidores do Senado.
Eu nunca disse que era uma vergonha o Brasil querer julgar alguém como eu. Eu nunca me esqueci que o artigo 5º da Constituição diz que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Por isso tudo, o presidente Lula nunca pediu que respeitassem a minha biografia.
Nada, nadinha mesmo do que eu escrevi me aconteceu ao longo de meus 30 anos de vida. Porque eu nunca me chamei José Sarney.
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