Terça-feira gorda e eu confesso: não vejo a hora de o Carnaval terminar. Tudo porque, dizem, o ano só começa depois que o Rei Momo e sua corte desfilam por aí. Daí é aquela velha história que todo mundo já conhece: qual será o próximo feriado? Será a Páscoa, em abril, logo no começo.
Mas, se é verdade o que dizem, sobre o ano só começar depois do Carnaval, temos um grande problema pela frente: em 2011, o Carnaval será apenas em março. Isso quer dizer que, se a sabedoria popular estiver correta, será um ano com nove e não doze meses. Nove meses, sem levar em conta os feriados e o fato de dezembro ser um mês perdido.
Daí começa aquele velho hábito de refletir sobre o tempo. Será que ele realmente passa rápido demais ou fomos nós que nos tornamos lentos demais para acompanhá-lo?
Com essa história de Carnaval, a Cidade ficou mais vazia e, de repente, me peguei observando com maior atenção as ruas, as casas, os prédios. Antigamente, na Rua Ipiranga, funcionava uma casa noturna chamada Batuka Jazz. Não é da minha época, mas eu me lembro que durante o Carnaval, a música, os risos e a alegria pareciam flutuar lá de dentro. Pelo menos era impressão que eu tinha, do lado de fora. Hoje, o lugar está sendo reformado pela Prefeitura, e deverá ganhar uma nova função.
E o Carnaval? Já foi mais animado, eu acredito. É uma opinião pessoal, varia de pessoa para pessoa. Houve um tempo em que os dias de folia serviam para se viver uma fantasia, se transformar em um cowboy, uma odalisca, um pierrot ou uma colombina… Quatro dias para você ser quem quisesse. Um super-herói, talvez. Ou uma mocinha em perigo. Havia algo de humano que hoje ninguém mais reconhece além do tom de profissionalismo. Profissionalismo? Não era para ser uma festa?
Quatro dias para se esquecer da realidade.
Será que foi o Carnaval que mudou ou serão as pessoas que simplesmente deixaram de se divertir e passaram a buscar outras prioridades? É muita coisa para se pensar, coisas que não se resumem a quatro dias de folia.
Pelo menos por este ano, o Carnaval termina hoje. Ou ao meio-dia de amanhã, Quarta-feira de Cinzas. Mas duvido que o ano comece amanhã, depois do meio-dia. É capaz que muita gente resolva dar uma esticadinha e só retome suas atividades na próxima segunda-feira. Daí o horário de verão vai haver terminado, as águas de março estarão ao caminho para fechar o verão… “É a promessa de vida no teu coração”, cantaria Tom Jobim.
Chega a ser irônico pensar na chuva como uma promessa de vida, depois de toda a aguaceira que caiu desde o começo do verão. Quem sou eu para questionar, entretanto, que “É pau, é pedra, é o fim do caminho/ É um resto de toco, é um pouco sozinho/ É um caco de vidro, é a vida, é o sol/ É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol/ É peroba do campo, é o nó da madeira/ Caingá, candeia, é o MatitaPereira/ É madeira de vento, tombo da ribanceira/ É o mistério profundo, é o queira ou não queira/ É o vento ventando, é o fim da ladeira…”
É tempo de correr. É tempo de começar, de recomeçar. De escolher um rumo a seguir. De botar o pé na passarela. Afinal, o tempo urge e a Sapucaí é grande.
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