O preço da dignidade

Em minha família, aprendemos a cultivar nossa dignidade desde cedo. Acredito que em muitas outras famílias não seja diferente. Existe, sim, uma grande diferença entre orgulho e dignidade. Orgulho está ligado à vaidade, enquanto a dignidade está ligada à honra, o caráter. Ter dignidade é honrar a si mesmo, sua história e a história daqueles que fazem parte de sua vida.

É de se notar, entretanto, que a dignidade tem sido considerada “perfurmaria” em diversas situações. Basta ficar um pouco mais atento para observar situações que ocorrem o tempo inteiro e, de repente, o que não tem preço passa a ser traduzido em números.

Há alguns dias, por exemplo, um senhor veio ao jornal para reclamar do preço (R$ 25,73) da segunda via do Cartão Conforto, um cartão emitido pela Prefeitura de Mogi que funciona como um bilhete eletrônico no transporte público, direcionado a pessoas com mais de 60 anos.

Aos 82 anos, ele explicou que sabia que não era necessário ter aquele documento, que com a carteira de identidade ele poderia utilizar o transporte público sem problemas. Ainda assim, ele preferia ter o cartão para não ser obrigado a descer pela frente e ser alvo de olhares no ônibus, como se ele estivesse fazendo algo errado. Era uma questão de dignidade.

No caso desse senhor, que me contou que trabalhou a vida inteira e agora é obrigado a sobreviver com uma aposentadoria no valor de um salário mínimo, a sociedade insiste o tempo inteiro em colocar preço em sua dignidade. Seja no valor da pensão, ou naqueles R$ 25,73 que a Prefeitura cobra pela segunda via de um documento. A justificativa da Administração Municipal é que o valor é referente à confecção do novo cartão.

Eu também entendo esta parte. Sei que o ponto fraco de muita gente é o bolso, e que as pessoas se tornam mais cuidadosas quando sabem que lá na frente existe uma multa ou uma taxa. Mas também acredito que cada caso é um caso. Que não podemos resumir tudo em números.

É preciso levar em conta que, por trás de cada número existe uma pessoa, uma história, uma vida. E que essa pessoa, essa história e essa vida estão ligadas a muitas outras pessoas, histórias e vidas. E número nenhum é capaz de traduzir o desespero no olhar desse senhor, que se sentiu humilhado, do alto de seus 82 anos, ao ser tratado como uma criança irresponsável. Quantas vezes já vimos este olhar? Quanto tempo gastamos refletindo a respeito disso?

Tempo insuficiente, acredito. Porque nos esquecemos – ou não queremos pensar nisso – que o tempo passa para todos. E que, um dia, poderemos ser nós no lugar do outro. Precisando de uma mão amiga, de um ombro, de um prato de comida, de compreensão. De que não nos vejam apenas como números ou estatísticas, que nossa existência não se resuma a dinheiro.

Dignidade é algo que não se compra, não se vende. Se cultiva no dia a dia. Se aprende com exemplos, se exercita com ações. Dignidade é algo de muito valor. Mas, fique atento. Porque dignidade não tem preço.


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