O País da bola

A três semanas do início da Copa do Mundo da África do Sul, um fenômeno – que nada tem a ver com o jogador Ronaldo – começa a tomar conta do Brasil. No caso deste texto, Mogi das Cruzes é o foco. Seria um surto de nacionalismo? Por causa do futebol, de repente todos começam a ter orgulho de ser brasileiro, inclusive levando as cores verde e amarelo em roupas e acessórios, entre outros.

As bandeiras, normalmente tímidas e restritas a prédios oficiais e afins, ganham as ruas, as vitrines, as janelas. Ganham a atenção de todos, como se gritassem: “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor….” Opa. E não é que essa música existe? É o hino oficial dos brasileiros na Copa do Mundo.

A minha pergunta é a seguinte: por que só sentimos orgulho e amor pelo Brasil em época de Copa do Mundo? E mais, por que este orgulho só aparece a cada quatro anos (salvo em época de Jogos Olímpicos, com muito esforço, quando algum esporte coletivo traz medalhas – ouro, de preferência). Orgulho que some quando a Seleção Brasileira perde um jogo ou é eliminada de uma competição. Daí, a próxima chance de vestir verde e amarelo, só dali a quatro anos.

Observando as decorações pseudo-ufanistas que começam a pipocar por aí, de repente é a minha mãe quem dá a melhor palavra para definir tudo isso: temático. Somos uma nação temática. Praticamente uma Disneylândia. Se é Carnaval, nos fantasiamos para o Carnaval. Se é Páscoa, esperamos pelo Coelhinho da Páscoa, assim como esperamos pelo Papai Noel no Natal. Se é junho, todo mundo assume um espírito de regionalizaç!ao para as festas juninas. E por aí vai.

Na Copa do Mundo, podemos viver todas estas fantasias em uma só. A esperança, a renovação, o orgulho. Mas, por que só na época da Copa do Mundo? Por que só nos lembramos de quem somos se vencemos?

Semana passada, quando o técnico Dunga anunciou os convocados para a Seleção Brasileira, a maioria das opiniões demonstrava reprovação. Em época de Copa do Mundo ou não, todo mundo é especialista em futebol, com capacidade para ser técnico. Todo mundo quer dar opinião. Se a Seleção for mal, o País vai parar. Dunga será crucificado.

Se for bem, também não adianta. Ir bem não basta. Tem de ganhar.

Vivemos em um País em que competir não é o mais importante. Só importa ganhar.

Porque só ganhando o brasileiro é capaz de sentir orgulho do próprio País.

Será que Dunga sabe que, mais importante que comandar a Seleção Brasileira, ele e sua equipe têm em mãos o futuro do País? Sim, porque menos de três meses depois da Copa do Mundo da África do Sul temos eleições para presidente, governador, deputados e senadores. Por mais que efetivamente uma coisa não tenha nada a ver com a outra, elas estão intimamente ligadas pela figura do torcedor/eleitor, que é uma só.

Será que se dispensássemos a mesma energia que usamos para torcer pelo futebol para a solução de problemas que realmente importa, como o acesso à educação, segurança, saúde e cultura – sempre com qualidade -, não estaríamos em melhor situação? Se conhecessemos tão bem os políticos que elegemos como conhecemos os jogadores escalados pelo técnico Dunga, será que não teríamos uma seleção melhor? Se acompanhássemos de perto as tramitações de leis e projetos, como acompanhamos as rodadas de futebol?

Ah, mas, quem é que se importa com política, quando é a Copa do Mundo que realmente interessa?

 


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