Arthur Netto ou O Tribunal da Santa Ignorância

Arthur José Netto era publicitário e ator. Era um cara sempre disposto a dar seus “pitacos” em tudo que era mesmice em Mogi das Cruzes. Era filho, irmão, tio e amigo.

A trajetória de Arthur Netto recebeu um ponto final no dia 15 de setembro de 2006, em decorrência de um dos episódios mais covardes da história da nossa Cidade, rumo aos seus 450 anos.

Era 5 de agosto de 2006. Depois do trabalho, Arthur participou do aniversário da mãe, dona Neide, na Vila da Prata. Depois, foi para a casa noturna Divina Comédia, para se encontrar com os amigos. Era madrugada quando ele saiu, a pé, em direção ao Largo Francisco Ribeiro Nogueira, onde pegaria um ônibus para voltar para casa. Até aí, tudo normal, não fosse ele atacado por três pessoas, veja só, na Rua Cândido Vieira próximo a Rua Otto Unger.

Sim, bem perto do batalhão da Polícia Militar. Mas nem isso inibiu os agressores de Arthur, que o machucaram com garrafadas, socos e pontapés. Na manhã daquele dia, familiares e amigos do publicitário entravam em choque quando eram comunicados do acontecido. Dali em diante se seguiram 41 dias internado no hospital.

Foram seis semanas de uma esperança que se renovava a cada sutil melhora.

Me lembro quando ele saiu do hospital. Quem conhecia o Arthur tinha certeza que ele iria ficar bem. Se você leu o começo deste texto, entretanto, já sabe como a história termina. Arthur passou mal, foi levado novamente ao hospital, mas não resistiu.

Em julho do ano passado, o Ministério Público ofereceu denúncia contra o ajudante-geral Antonio Ernani gomes Filho e o entregador Carlos Vinícius de Moraes Calegari da Silva, acusados como autores do espancamento. O que realmente aconteceu naquela madrugada, entretanto, somente quem estava lá é que sabe.

E por mais que a justiça seja feita, nada disso trará o filho, o irmão, o tio, o amigo, o publicitário ou o artista de volta. E por que tocar neste assunto justo agora?

Na noite de domingo, a Cia. do Escândalo, da qual Arthur Netto fazia parte, encerrou a temporada de O Tribunal da Santa Ignorância, espetáculo escrito e dirigido por Manoel Mesquita Jr. que ganhou nova montagem 12 anos depois de sua estreia. Na versão original, Cristaud I, o juiz do Tribunal da Santa Ignorância, hoje maravilhosamente interpretado por Meyson, foi vivido por Arthur Netto.

Eu não assisti à primeira versão, há 12 anos, mas gostaria muito. Felizmente, eu tive a oportunidade de assistir ao espetáculo desta vez.

O Tribunal da Santa Ignorância é uma espécie de juízo final. Após a morte, cabe a Cristaud I decidir, com a ajuda de Clarice e Franz, o destino de seus réus: o céu ou o inferno. E por lá passa tudo o que promove a massificação. Entenda a massificação por tudo o que nos transforma em massa disforme, sem consciência, sem reação. Alienados.

O excesso de informação, que anula o senso crítico. O excesso de vertentes religiosas, que anula a fé. O excesso de moda, que anula o estilo. O que é bom ou mau gosto?

O Tribunal da Santa Ignorância deverá ser reapresentado em julho, no aniversário do Galpão Arthur Netto de Arte e Cidadania. Na noite de domingo, dona Neide, a mãe de Arthur, e Renata, sua irmã, estiveram lá, assistindo ao espetáculo. Renata, inclusive, fez uma participação especial no final. E é com sua fala que eu fecho este texto, um resumo de tudo que aqui foi dito. “Pro inferno com a ignorância!”

 

 


Publicado

em

,

por

Tags:

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *