História

Está em cartaz nos cinemas – não nos de Mogi e Suzano, lamentavelmente – o filme Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino. O longa-metragem, para alguns, é considerado mais um delírio do diretor de Pulp Fiction e Cães de Aluguel. Para outros, é a arte cinematográfica dando a oportunidade para que a imaginação crie asas e, por 162 minutos, uma das maiores manchas da história mundial ganhe outros contornos, outras cores, outras lembranças.

O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial e é dividido em capítulos. Em cada um deles, somos apresentados a personagens marcantes e o destino de cada um deles permanece uma incógnita. Caso de uma garota judia que testemunha o assassinato de sua família, mas consegue fugir. O executor é um coronel nazista que, como muitos políticos de hoje em dia, dançam conforme a música.

Os Bastardos Inglórios do título, entretanto, são um grupo de soldados judeus liderados por um americano, cujo único objetivo é matar e escapelar nazistas. Fazer com que eles sintam a mesma dor que provocam nos outros. E isso significa litros e mais litros de sangue espalhados pela tela grande.

A principal missão deste esquadrão da morte, que por incrível que pareça consegue espalhar medo e horror entre aqueles que sempre espalharam medo e horror, é eliminar algums dos principais comandantes do Terceiro Reich, acreditando que isso seria o suficiente para colocar um ponto final na guerra.

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Obviamente que nada disso aconteceu. O que aconteceu foi o vergonhoso genocídio de judeus, a destruição de diversos países, a matança de jovens que mal tinham idade para empunhar uma arma, a abreviação de vidas, de histórias, de planos e sonhos.

Da mesma maneira que Adolf Hitler impôs aos judeus que usassem estrelas sobre suas roupas para identificá-los, Quentin Tarantino devolveu o fardo na mesma moeda, pelo menos na ficção. No longa-metragem, os soldados nazistas que têm suas vidas poupadas pelos Bastardos Inglórios têm a suástica gravada em suas testas, com o auxílio de uma faca. A justificativa: o soldado pode tirar o uniforme e fingir que nada aconteceu, mas aquele símbolo entalhado na pele denuncia o passado daquela pessoa.

A Segunda Guerra Mundial parece ser uma realidade distante demais da nossa, seja pela distância geográfica, seja pelos anos que nos separam. Na verdade, a violência, a intolerância e a impunidade de hoje em dia são reflexos do que aconteceu lá atrás.

Violência, aliás, é um assunto que incomoda a todos. A mesma distância geográfica e temporal que nos separa da Segunda Guerra Mundial nos aproxima, por exemplo, do que acontece atualmente no Rio de Janeiro. Isso quando não é no nosso próprio quintal.

Quentin Tarantino mostra uma realidade diferente e nos dá a chance de refletir como teria sido se a história fosse outra. E eu me pergunto o que podemos fazer hoje em dia para que, no futuro, a história realmente seja outra. Que as pessoas lá na frente não olhem para trás e se perguntem por que nada foi feito. Por que permitimos que o medo e o horror das guerras urbanas prevaleçam? Não temos estrelas ou suásticas entalhadas em nossas testas, mas a marca que o medo e a impotência têm deixado são mais visíveis que qualquer outra coisa.

 


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